Inspirar-Poesia, um segundo sopro

um conto de um conto de rés

Por Sueli Maia (Mai) em 1/11/2010
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A cama estava desfeita. Ao chão, os adornos e as roupas se empilhavam e sobre a mobília, apenas uma toalha em desalinho. Os cacos de vidro restavam espalhados rente à parede oposta aos móveis. Quando enfim decidi atendê-la, encontrei-a de pé. Ainda se via beleza naquele desleixo. Os longos cabelos ensejavam pentear. Há um estado de humor que afeta os sentidos. Em meio à desordem andava de um lado ao outro e parecia esperar. Minutos de silêncio eram rompidos por soluços e tosse que entrecortavam a respiração. A obsessão turva a mente e ensurdece. Não percebeu a minha chegada e porque subitamente olhava para os lados e para trás denotava pressentir, além de nós, outra presença. Vez outra esfregava o peito e afagava o retrato que mantinha em abraço. Se era o mesmo da parede ainda era moço e era sério de feição. Ao serviço eu já estava acostumada mas, porque demorava, a agitação aumentava e eu me entretinha a observar os detalhes da casa. Os cheiros entranham - mais na madeira e nos livros. Esse bordado largado sobre a mesa fazia concluir que o tempo, ali, não havia seguido. Tudo é mais fácil quando se está preparado a abandonar. O meu tempo era outro e para seguir, faltava ela terminar, se despedir. Mas quando eu a encarei nos olhos, o porta-retratos caiu, ela gritou e lutou, mas eu a peguei de jeito.

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49 comentários:

Pâmela Marques. disse... @ 11 de janeiro de 2010 16:27

Tenho em mente um retrato assim como tu descreveste. As cenas sempre tão iguais com personagens diferentes. Não sei o motivo, mas o teu texto me preendeu de uma forma peculiar, talvez porque eu tenha me visto completa aqui.

O que tu escreve sempre me deixa boquiaberta. Quero escrever como você algum dia. Sim, sou tua fã.

A Senhora disse... @ 11 de janeiro de 2010 17:13

Sabe do que lembrei? Da Dona Morte, do Mauricio de Sousa. :) Eu adoro aquelas tirinhas, a paciência dela em esperar, ou argumentar, e subitamente decidir.

Beijinhos

Caio Fernandes disse... @ 11 de janeiro de 2010 18:10

wow , o que e isso , fascinante descrisao Mai ...voce tem esse talento de criar a atmorfera e deixar o leitor se envolver ate o ultimo fio de cabelo !!
tempo.....

Macaires disse... @ 11 de janeiro de 2010 18:42

Senti um clima diferente, nesse conto, um clima leve de suspense, um algo por vir...


Beijo, Mai!

Lou Vilela disse... @ 11 de janeiro de 2010 19:10

Passando para te ler...

Bjs

Lara Amaral disse... @ 11 de janeiro de 2010 19:14

Quantos objetos criam vida e nos trazem certas pessoas à lembrança...

Bonito lirismo nesse seu texto descritivo-poético.

Beijos, boa semana!

Ianê Mello disse... @ 11 de janeiro de 2010 19:22

Belo texto, Mai.
O lirismo em suas palavras, o suspense gerado, as entrelinhas...

Parabéns!

Quero lhe convidar para visitar meu blog, pois mudei o layout. Agora está mais clean, mais amplo.

Criei mais dois que para conhecer basta linkar na barra lateral.

Aguardo sua visita.

Me desculpe se já havia lhe avisado, mas são tantas pessoas...rsrsrs

Beijos.

Multiolhares disse... @ 11 de janeiro de 2010 20:22

Por vezes já tudo partiu, já não podem haver amarras, mas teimamos acorrentar as lembranças
beijinhos

Beto Canales disse... @ 11 de janeiro de 2010 21:25

legal

Dauri Batisti disse... @ 11 de janeiro de 2010 21:31

Você resolveu partir para o conto também? Mni-contos são sempre algo agrável de ler.

A morte a pegou? Bem, deixa estar, não é necessário responder.

Beijo, e tenha sempre boas histórias para nos contar.

Layara disse... @ 12 de janeiro de 2010 00:48

Menina Mai, que texto tão cheio de emoçoes, me prendeu, li e reli...

O passar da vida faz-nos relembrar de tantas coisas que é dificil largar, seguramos no peito as marcas da vivencia.

Beijos então!

Fábio disse... @ 12 de janeiro de 2010 11:16

Muito bom, Gostei muito mesmo. "Há um estado de humor que afeta os sentidos" Essa expressão é muito boa.

Abraços.

Assis Freitas disse... @ 12 de janeiro de 2010 12:02

Sensacional, o desfecho pega é o leitor. Beijão.

Abraão Vitoriano disse... @ 12 de janeiro de 2010 12:29

"Tudo é mais fácil quando se está preparado a abandonar."


O fim é um sim avesso. É ensaio de morte, fábrica teatral, efeito da mudez. Nada se compara ao fio de cabelo no rosto pregada, e mãos que não sabem se oram ou pedem. Joelhos são culpas, mas que não reconhecem, e por isso só vai ao chão em caso de urgência, quando uma pétala ainda cai e é amarela e rara pra que possa ser esbanjada, pobre vizinha. A inveja é dos amantes, é só ama que falece e se transforma. Cacos, raspas não são nada quando o olho abafa o que sentiu. A lágrima presa dói mais que mil bofetadas. O encontro é palma, mas o viver é borracha.


do seu homem-menino-ao-seu-lado-sem-juízo

Carla Martins disse... @ 12 de janeiro de 2010 12:57

Adorei este texto...beijinhos mai

Gian Fabra disse... @ 12 de janeiro de 2010 14:21

perfeito.

é a seleção natural dos 'eus'.
o são suplanta o ferido!

bjs

***MissUniversoPróprio*** disse... @ 12 de janeiro de 2010 14:53

Nossa, que texto forte. Intenso, denso, belo.


Obrigada pelo lindo comentário lá no blog... eu gostaria que os instantes que vivi, virassem assim uma eternidade...

Beijos!

Mirse Maria disse... @ 12 de janeiro de 2010 18:09

Extraordinário!

O desfecho final, é súbito e nos pega desprevenidos.

E há os olhos, que quando encarados, impossível mentir, ou fingir.

Parabéns, Mai!

Beijos

Mirse

***MissUniversoPróprio*** disse... @ 12 de janeiro de 2010 20:17

Que lindo teu comentário lá...adorei, viu? Obrigada! beijos!

***MissUniversoPróprio*** disse... @ 12 de janeiro de 2010 22:01

hahahaha Pois é...eu pensei nisso tb...uma série...

Vou começar a anotar, pra fazer!

hihihihi Bjocas!

Kanauã Kaluanã disse... @ 13 de janeiro de 2010 09:35

Mai.

Os detalhes! Estes pontos entrelinhas que me fazem sempre arrepios.
A descrição do ambiente como espelho onde se via o interior da personagem.
Fico a pensar como, tantas vezes, um estado de coisas e um estado de espírito transcendem a lógica, num querer romper barreiras, e de uma forma ou de outra, todos temos uma força para o abandono, mesmo que seja do que doi.

Lembras? "Matar a própria morte..."

Abraço imenso.

Kanauã Kaluanã disse... @ 13 de janeiro de 2010 09:39

Ah, Mai.

Sobre tua pergunta quanto às imagens no meu blog...

Não procuro em sites determinados.
Pesquiso ao acaso, na maioria das vezes, a partir de alguma palavra-chave; e quando encontro uma boa imagem, vou com toda curiosidade à procura de galerias dos autores.
;)

Beijos.

Oliver Pickwick disse... @ 13 de janeiro de 2010 11:48

Que narrador inusitado você arranjou, hein? Doravante, chamar-se-á Mai King, prima do Stephen King, só que, com mais riqueza na linguagem. O mais incrível é a façanha de escrever a história com tão poucas palavras. De fato, vale um conto de réis. Lembre-se que um conto é dez x cem mil.

Troll disse... @ 13 de janeiro de 2010 12:39

E haveria melhor maneira de fazê-lo, senão tão de súbito assim?

lagrima disse... @ 13 de janeiro de 2010 15:39

".... Mas quando eu a encarei nos olhos, o porta-retratos caiu, ela gritou e lutou, mas eu a peguei de jeito..."

Que bom que a conseguiu pegar de jeito:))

O dicionário tem palavras dificeis, algumas do meu:
- saber abandonar
- saber dizer adeus... (sei, mas como não gosto, faço de conta que me esqueço e deixo que se prolongue no tempo...)

Abraço Mai, te reli mts vezes.

Batom e poesias disse... @ 13 de janeiro de 2010 16:35

Mai,
Tudo já foi dito aí em cima.

A mim sobrou dizer o quanto gosto de te ler. Seu estilo me comove.

Beijão.

Rossana

Priscila disse... @ 13 de janeiro de 2010 17:56

Você é talentosa!

J.F. de Souza disse... @ 13 de janeiro de 2010 17:59

...quando de repente, um crime aconteceu.

=P

Bjão! =*

Patrícia disse... @ 13 de janeiro de 2010 19:32
Este comentário foi removido pelo autor.
Elcio Tuiribepi disse... @ 13 de janeiro de 2010 21:43

Oi Mai...confesso, estou com medo de arriscar, alguém passou perto?
Só uma perguntinha mais: é real ou ilusório, todo esse teu mistério...
aí então comento, mesmo dando um tiro em meus próprios olhos...
Um abraço na alma...bjo

líria porto disse... @ 13 de janeiro de 2010 21:44

gosto de ler assim - da primeira à última palavra sem respirar!
a música - ótima!

besos

reltih disse... @ 13 de janeiro de 2010 21:45

excelente relato. me gustó mucho.
un abrazo

Nydia Bonetti disse... @ 13 de janeiro de 2010 21:52

Sempre tão difícil "abandonar".
Podemos imaginar "este" abandonar...

Que belo texto, Mai. Bjo.

Ianê Mello disse... @ 13 de janeiro de 2010 23:44

Querida, hoje vim te convidar para participar em meu blog "Labirintos da Alma" da poesia interativa que iniciei.

Conto com você...e sua criatividade.

Beijinhos.

Simples Assim... disse... @ 14 de janeiro de 2010 00:42

Algumas coisas são muito, muito tristes. Uma delas é ver uma pessoa perder a conexão consigo mesma. Acho que uma pessoa pode se apartar de quase tudo sem estar irremediavelmente perdida, do seu lugar, do seu amor, até mesmo do seu tempo. Acho até que uma pessoa pode (em certa medida, precisa), em muitos momentos, afastar-se um pouco de si mesma pra poder encarar a coisa de forma mais ampla. Nessas situações, a pessoa cria uma ponte, um caminho que a levará de volta, mesmo que ela nunca mais volte a viver dentro de si mesma, a ligação está ali. Mas quando esse laço é desfeito abruptamente, a ligação cortada, nesses momentos, quem era vivo passa a ser apenas um espectro, um arremedo, um rascunho de quem foi, mesmo que nunca se tenha definido ao certo quem realmente era. Acho isso muito triste. Isso me faz lembrar a sensação que tive quando li, aos 6 anos, a estória de joão e maria. Aquele que se vê repentinamente alijado do caminho de volta fica muito mais vulnerável a ilusões.

É sempre uma viagem vir aqui. Sempre. Só me resta agradecer. Bjs.

Elcio Tuiribepi disse... @ 14 de janeiro de 2010 08:21

Bem...estou relendo........
Ainda relendo...está vindo...está vindo...está vindo...vindo...vindo...
Baixou...rrs...
Afff...to precisando rir...
Muito simples...isso aqui não tem nada a ver com morte como muitos estão dizendo...ledo engano...
Primeiro ponto: Um casal acabara de fazer amor, este o motivo das roupas e da toalha em desalinho.
Segundo ponto: que não foi o G com certeza...mas vamos lá...
Os cacos de vidro uma briga do casal, ela andando de um lado para o outro pensando na vida, ele volta e a vê, ainda com beleza apesar do desleixo.
Ela perdida sem saber o que fazer, pressentia a "outra"...rss...aff...to rindo aqui...
De repente pegou o retrato e começou a lembrar...lembrar...enquanto que ele apenas olhava já se preparando para abandoná-la, então, ela inconformada deixou o porta-retratos cair no chão e partiu pra cima com socos e bofetões...pluftt...teve jeito não, o cara pegou ela de jeito...
Essa galera não entende nada...Mai..expelica pra eles...fala sério...rsrs
Ainda bem que você é psicóloga...rs
E olha, nem falei da música de fundo hein!
Nem vou reler, porque senão apago..rs
Um abraço na alma...bjo

nina rizzi disse... @ 14 de janeiro de 2010 13:16

ei, mai, vai bem de prosa, hein.
veja, rimou: então eu tô certa. rsrs

um beijo.

Tomaz disse... @ 14 de janeiro de 2010 15:11

Que treta !! Isso me lembra o meu divórcio eehehhee Enfim, tava com saudades de ler por aqui... Dei uma sumida, mas o bom leitor ao seu blog volta ;)

Beijão

Márcio Ahimsa disse... @ 14 de janeiro de 2010 19:44

faltava ela se despedir, mas, no entremeio da angústia, nua e simples, via-se que não pariu em nenhum instante, aquela vontade de partir. Desejava sorte, desejava vida, desejava gritar. Mas o grito não veio. Eis que surgio aquele calabouço de silêncio tentando escapar por entre os lábios. Ela baixou os olhos. Vi pelo balançar das suas sombrancelhas que ela ficara acuada, sentira-se sem ação. Mas meus braços estavam mais atentos. Puxei-a pela cintura, ela estremeceu. Senti seu tremor dançar com o suor frio que emanava de sua pele, quase morna. O moreno enrubeceu. Ela ficou um cristal e se desmantelou como uma pétala quando minha boca atrevida roubou sua timidez e calou sua indecisão com um beijo. Depois, foi esquecer todos os cheiros, esquecer aquela atmosfera de sermos estranhos e terminamos com a intimidade dos nossos cheiros se misturando noite afora...

Bom, acho que, por aqui está bom né, rs.

Mai, querida, adoro quando escreves assim, tuas letras em forma de conto, teus contos em forma de poesia, tua poesia em forma de te ser.

Beijos, querida. Te adoro, sempre.

Lisa Alves disse... @ 14 de janeiro de 2010 20:06

"O meu tempo era outro e para seguir, faltava ela terminar, se despedir." perfeito isso

tossan disse... @ 14 de janeiro de 2010 23:11

Confesso, muitos não entenderam o teu texto nem eu...Mas eu volto quem sabe eu entenda. Beijo

Katrina disse... @ 15 de janeiro de 2010 11:45

Tudo é mais fácil quando se está preparado a abandonar


queria que fosse verdade

Ricardo Valente disse... @ 16 de janeiro de 2010 13:11

Cena boa. Bem descrita, gerando suspense... Vai ter 3D?
Abraço
(Bom ver teu rosto!)

Vivian disse... @ 16 de janeiro de 2010 13:13

...dos conflitos humanos
saem pérolas assim como este
conto de mil réis...

bj, lindeza!

Braulio Pereira disse... @ 16 de janeiro de 2010 14:36

adoro palavras palavras

é tao belo tudo

voce é poema.

beijo =)

Luanne Araujo disse... @ 16 de janeiro de 2010 14:59

Que bonito, Mai. Me deu arrepios. O jeito que você escreve me lembra ondas do mar, nunca se sabe se a próxima linha é calma ou enorme, como se eu estivesse no meio de boiar ou levar um caldo, um redemoinho. Bom ter chegado até seu blog. E seus comentários sempre me passam algo bom, obrigada por eles. Beijos.

Caio Rudá disse... @ 16 de janeiro de 2010 17:04

o título me levou a um quarto do final do século XIX. me lembrou "senhora"...

guru martins disse... @ 16 de janeiro de 2010 18:57

"Tudo é mais fácil quando se está preparado a abandonar"
...mas nem por isso
menos dolorido
caminha-se pra ele
com a resignação
e a calma de morte
que alguns fins impõem...

bj

iaiá disse... @ 18 de janeiro de 2010 02:45

o apego...
é tão difícil deixar ir. entender que nada é nosso...nada é definitivo.
bj

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