Inspirar-Poesia, um segundo sopro

horizontais - diário das ruas

Por Sueli Maia (Mai) em 9/22/2010
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Roncou a motocicleta - são 5:30 - com a entrega dos jornais. E não pelo tráfego, mas pela intensidade, há ruidos peculiares à rua Dr. Joaquim Benevides. Por detrás das persianas e cortinas, mãos, olhos e pontas de cabelos denunciam a astúcia costumeira. - Caiu! - Gritou um. E de seguida, aplausos e assobios foram replicados com uma risada. E noutro grito: - Deitou! -Josete é conhecida por sua fartura. Capa de revista nos anos 90 transita às claras com seus namorados. Um tipo inevitável de mulher, não se importa com o noticiário. No correio da vizinhança, ela e seu Jamil figuram em primeira página. Viúvo há quase dois anos, o vermelhão dono da padaria é farto nas formas e na risada. Do terreno baldio à frente, mais dois arranha céus surgirão. No verão, as folhas da paineira atapetam as varandas, redobra o trabalho e aumenta a campanha do contra. Sobre o seco das folhas, a simples queda de um objeto desperta os plantonistas da Joaquim Benevides. Como o estouro de um transformador após um trovão, o tombo pareceu-me pesado. A risada era conhecida. Horizontais, pensei. Algo caiu e não sei bem por que, mas pensei na Josete, no Jamil e na velha paineira.


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Música - Gustavo Dudamel e Orquestra Simon Bolívar - (Mambo) - Bernstein

32 comentários:

Lara Amaral disse... @ 5 de fevereiro de 2010 18:38

As folhas secas aqui no seu texto já serviram para fim diferente do alcançado no meu texto, e sem dúvida, mais engraçado, hehe... Pobre paineira.

Beijos.

Kanauã Kaluanã disse... @ 5 de fevereiro de 2010 18:53

Como quem descortina um olhar sobre o cotidiano, e com a tesoura dos detalhes, recorta pedaços de visões para os retalhos do dia.

Beijos.
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Katyuscia.

Caio Fernandes disse... @ 5 de fevereiro de 2010 19:07

tao bom ler nesse seu estilo .
me lembra os classicos da cronica brasileira que eu lia bem bem bem jovem .
realmente adoravel .

Marcelo Mayer disse... @ 5 de fevereiro de 2010 19:23

esse sim é um autentico joao de tal

Rafael Belo disse... @ 5 de fevereiro de 2010 21:31

Em caem de pés os humanos gatunos, mas seriam eles os olhos ou os olhados! Bom recorte bairrista hehe ou nãokkk beijos Mai maravilhosa. Bom fim de semana
ps: pegou seu selo ?!

Luciene de Morais disse... @ 5 de fevereiro de 2010 21:38

Oi Sueli
Sentimentos bem humanos por trás das cortinas, persianas, aplausos assobios, gritos e risadas...
Interessante seu estilo novo. Gostei!

Dauri Batisti disse... @ 5 de fevereiro de 2010 21:39

Bem disse o caio lá em cima, lembra os clássicos das crônicas, aquelas sempre gostosas de ler.

Um beijo

Nydia Bonetti disse... @ 5 de fevereiro de 2010 22:48

Teu texto me fez lembrar as férias que eu e minha irmã passávamos em São Paulo (duas caipiras na cidade grande), num apartamento na Hadock Lobo, casa da tia. A gente ficava o dia todo atrás das cortinas, que tinha função dupla: nos esconder do povo da casa e olhar o povo da rua, os casarões sendo demolidos, prédios sendo erguidos. E havia uma mangueira, acredite, que também foi derrubada... Beijo,Mai!

tonholiveira disse... @ 6 de fevereiro de 2010 02:53



Jo7, Ja1000 e pai NEI irá...

Cronista de primeira!

Beij♥ ← nele!

Jacinta Dantas disse... @ 6 de fevereiro de 2010 08:36

Fico aqui observando o tapete seco que vem do alto. Vidas que se esvaem, de um canto a outro, em transbordamentos vividos, do corpo da folha ao corpo do prazer matinal. Entornando-se, é preciso cair para que o novo possa florir.

Bjs

Eurico disse... @ 6 de fevereiro de 2010 11:42

Vim só pra te deixar beijos e flores.
Grato pelos teus emails. Sempre me fortalecem.

Marcelo Novaes disse... @ 6 de fevereiro de 2010 11:45

Mai,


Eis um tipo de risada, muito bem narrado. Escrevi sobre outra risada no Lugar.



Está tudo bem visível e audível neste teu texto: belo e eficaz.









Beijo,










Marcelo.

Filipe Garcia disse... @ 6 de fevereiro de 2010 15:27

Mai,

eu que ando com saudades de você, daqui, da sua poesia. Prometo que volto numa hora melhor pra poder te ler e comentar. Minha cabeça não tá boa - esse trem de monografia acaba com meus neurônios, cara. Rs.

Beijo pra você.

walter disse... @ 6 de fevereiro de 2010 15:55

Genial a sua escrita... e então aqui, se superou.

Amei!!!

Beijinho

Márcio Vandré disse... @ 6 de fevereiro de 2010 15:58

Está digna de um começo de livro a sua prosa.
Um beijo, Mai!

Assis Freitas disse... @ 6 de fevereiro de 2010 17:45

O olhar voyeur que tudo perscruta. Simples assim. Cheiro.

NDORETTO disse... @ 6 de fevereiro de 2010 17:45

E nos seus,uma velocidade cardíaca!

abraços

Neusa

reltih disse... @ 6 de fevereiro de 2010 18:34

bueno y divertido tu relato.
un abrazo

paula barros disse... @ 6 de fevereiro de 2010 20:31

Mai, fico imaginando, você juntando as suas escritas, elaborando personagens, daria um romance, creio eu.

beijo

Osvaldo disse... @ 7 de fevereiro de 2010 07:54

Mai;

É o círculo (bem redondo) da vida. Tudo cai e com o tempo, todos cairão!... a motocicleta, as folhas da paineira, o Jamil, e as Josetes deste Mundo, porque haverá trovões para todos e até os transformadores da Joaquim Benevides não resistirão aos raios e coriscos!...

bjs, Mai e desculpa a ausência.
Osvaldo

Márcio Ahimsa disse... @ 7 de fevereiro de 2010 10:34

Ah, Mai, querida, eu adoro isso aqui,adoro essas linhas circunflexas que se fecham sobre nós que as lemos... É um poemar, um estar envolto sobre a realidade nossa do dia-a-dia, seja crônica, conto ou poesia, mas sempre retratando o humano mais essencial de cada um, com seu olhar de vênus, mãos de tecelã, coração de passarinho...

Por fim, uma tela, um quadro exposto à face nossa.

Beijo, querida.

Ah, desculpe pela fonte prata, vou ver se aumento o tamanho, rs...

dade amorim disse... @ 7 de fevereiro de 2010 11:40

Gosto imenso dessa prosa que você escreve com tanta leveza e tanto humor. Uma crônica e tanto.

Beijo

Erica Maria disse... @ 7 de fevereiro de 2010 11:54

Que foto bonita Mai!

Que texto lindo!

Saudades de vir aqui!

Bjos no seu coração!

Ilaine disse... @ 7 de fevereiro de 2010 16:35

Coisas de rua. Ruídos da Joaquim Benevides tão conhecidos, ilustrando um cotidiano nem sempre igual, e nem mesmo monótono. Jamil e Josete protagonista e criadores de história...caindo na horizontal, entre risadas.

Adorei, Mai. Uma prosa leve e pontilhada de imagens.
Sim, um romance. Continue!
Beijo

Barbara disse... @ 7 de fevereiro de 2010 16:46

Josete e Jamil não mereceriam cair e muito menos a Paineira - de cuja essência se faz o floral para quem tem dificuldades de quaisquer origens com o assunto maternidade.
Filhos, filhas, mães.
Doeu - porque arranjei uma muda de Paineira pro quintal de uma amiga e simplesmente sumiu.
Doeu de novo.

Luanne Araujo disse... @ 7 de fevereiro de 2010 18:52

Achei este mais seco comparado às outras coisas que li suas. As formas gordas, a vida urbana... bom caminho, Mai, gosto bastante de um outro tom que li seu mais poético, mas este aqui também me agrada. Acho que multiplicidade é uma qualidade positiva de um escritor. Beijos,

tossan disse... @ 7 de fevereiro de 2010 22:23

Toda cidade vai cantar
E finalmente vai voltar
O tempo da paz os tempos atrás
O tempo da consideração
Quando era menos ambição
E o coração valia muito mais
Toda a cidade vai cantar
O cancioneiro popular de tempos atrás
Que já não se faz
E chega a me dar uma emoção
De contemplar a multidão
Cantando pelas ruas principais
Joga todo mal pra fora
Abre o peito e chora em paz
Que é bonito demais
Toda cidade cantando
Como nos antigos carnavais

Paulo Cesar Pinheiro
Beijo Mai adorei o texto.

A Magia da Noite disse... @ 8 de fevereiro de 2010 09:22

as histórias da rua de uma forma nua e crua.

Daiana Costa disse... @ 8 de fevereiro de 2010 11:30

Cada canto, ou lugar, e seu jeito singular, costumeiro, de estar sempre atento as mudanças.

Úrsula Avner disse... @ 8 de fevereiro de 2010 11:52

Oi Mai, passei para uma rápida visita pois estou muito atarefada. Agradeço seu carinho em meu blog Sempre Poesia. Volte sempre. Bj com carinho,

Úrsula

Walkyria Rennó Suleiman, disse... @ 22 de fevereiro de 2010 21:28

Mai, quantas imagens passeiam na nossa mente, que a realidade não dá conta. Quando te leio, formo outras, vc me incita, e eu me deixo levar.

Ricardo Valente disse... @ 24 de fevereiro de 2010 22:36

são histórias para livros...
saudade!
vc mora em mim

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