Inspirar-Poesia, um segundo sopro

subordinadas orações

Por Sueli Maia (Mai) em 10/13/2010
.
Vista lá do alto a serra é como seios de mulher, o homem é imperceptível, e quase tudo se perde no colo da cidade. Úberes com várias bocas nas tetas... [A temperatura baixou em Friburgo]. Um vento frio batia seco no peito essa manhã, mas a cidade fervia espalhando gente de não ter mais lugar. De não ter, como prole de mãe parideira que de tanto ter até confunde o nome dos filhos. Naipe de metais no burburinho, são as gentes no comércio e os sons do consumo que espalha lixo em todo canto. Até bem pouco tempo os helicópteros não costumavam ser frequentes. E por aqui, também era rara a visão da carne crua e do aço exposto nos corpos de indigentes urbanos vestidos com cobertas e despidos de tudo. [A desigualdade é tão feia quanto a face da verdade. A ferrugem consome o ferro, a fome é laica, o crack é um lixo, e o desemprego é tão perverso quanto a dor sem destino que gasta a vida]. "Puta-que-pariu!" - Enquanto um menino fazia malabarismo e recolhia alguns tostões, eu o reconheci a correr da turba. "Corre! Pega!" A violência não é uma abstração ou uma obra surreal, e aquele era o George. O socorro era urgente, e a vida... ah! que vida era aquela? "Ah! Meu Deus! Deus do céu, alguém ajude!" - Mas quem é o responsável quando esse tipo de coisa acontece? E quem é capaz de deter a fúria? "Alguém chame a polícia pelo amor-de-deus" - O mal é permanecer de braços cruzados. Mas o sujeito com o Ipod falou: "prenderam o infeliz". - Certamente não há tecnologia que possa impedir tantas mutilações. A polícia não chegou a tempo de evitar o linchamento que amanhã estampará a página de um jornal qualquer.

"A violência não é uma abstração ou destino,
é um produto consequente. Um resto, um rastro.
É o resultado de contingências e descasos".

44 comentários:

Eurico disse... @ 13 de outubro de 2010 15:38

"a fome é laica"
a frase mais interessante sobre religiosidade que li nos últimos tempos.
a fome esbraveja, laica, e o Estado toca trombetas, farisaico.
Os "cristãos" de barriga cheia e doutorados em teologias, arvoram-se a perseguir, rotular, julgar, condenar, em plano século 21, depois do Cristo.
Arre!

Abç fraterno.

Marcantonio disse... @ 13 de outubro de 2010 16:20

Contundente demais. O que você descreve e reflete jamais estaria dessa forma nas páginas dos jornais. Porque aqui há a consciência humanística, a permeabilidade da empatia a se ver chocada e a buscar compreender, não o fenômeno social tão facilmente transformado em números e estatísticas, mas o fato humano com suas faces contraditórias.
Poucos querem compreender ou discutir as raízes complexas da violência. Para a burguesia é uma questão de erradicação sumária de pústulas e ervas daninhas, em função da mera defesa da propriedade e da tranquilidade material.


Um abraço, Mai!

Jacinta Dantas disse... @ 13 de outubro de 2010 16:54

Nossa Mai!
que texto forte. Forte demais. E, por aqui, passam e passam Georges, Josés, Marias... que como aí, também deixam marcas nas minhas marcas. Rostos-números-humanos-indigentes...gente? E eu, faço o quê?

Um abraço

Ricardo Valente disse... @ 13 de outubro de 2010 19:22

Se cada um pudesse se doar um pouquinho, né? Diminuir o ritmo e enxergar mais... De qq forma tá muito bom esse post. Adorei o título e saiba, guria, tuas palavras amenizam minha dor.
Beijo!

Gerana Damulakis disse... @ 13 de outubro de 2010 21:02

Que título magnífico! E que história pungente, forte. Há textos que preciso reler. Já reli.

Mário Lopes disse... @ 13 de outubro de 2010 22:49

Crónica da violência anunciada com todas as palavras imaculadas que a lucidez ainda consegue arrancar para se indignar com este mundo cão.

A Mai é uma maravilhosa escritora, que em cada palavra se rompe para melhor nos reconhecermos nos rios que em nós faz nascer. Nos rios da autenticidade e dos sentimentos genuinos.
Beijo terno.

Luanne Araujo disse... @ 13 de outubro de 2010 22:49

"A violência não é uma abstração ou destino,
é um produto consequente. Um resto, um rastro.
É o resultado de contingências e descasos."


sempre me delicio com suas curvas poéticas nas palavras, mesmo com temas duros assim.

A. Reiffer disse... @ 14 de outubro de 2010 00:52

Texto de grande intesidade e poder de reflexão. Abraços!

reltih disse... @ 14 de outubro de 2010 01:39

siempre es un gusto visitar su espacio.
un abrazo

Assis Freitas disse... @ 14 de outubro de 2010 09:30

Da montanha, a visão do alto, até se descortinar a planície. Onde a luta pela existencia se faz cotidiana e cruel, contrastes, tudo tão real como a verdade, que insiste em nos cegar,


beijo

Mirze Souza disse... @ 14 de outubro de 2010 10:52

"A desigualdade é feia mesmo"

Quantas verdades aqui descritas, Mai!

Torno a repetir, que ninguém merece um mundo assim.

Beijos

Mirze

dade amorim disse... @ 14 de outubro de 2010 12:35

Uma dessas histórias que os jornais relatam secamente, como se fosse só um fato, sem ver o que está por trás.
É gente e é terrível. Como esse texto.

Um beijo, Mai.

guru martins disse... @ 14 de outubro de 2010 16:18

...querida
comentar o texto seria bobagem
pois pajearia tua vaidade
coisa a que você já tá muito além
mas independente de tudo
e justamente por tua percepção
te ler é muito bom
um momento de requinte um deleite
se tenho vindo menos aqui
é porque ando muito atribulado
com o meu próximo cd
a música toma tudo de mim
e me dou com prazer...
mas não deixo de te ler

meu bj

Jorge Pimenta disse... @ 14 de outubro de 2010 17:26

nada na vida é frase simples; tudo é frase complexa, onde as relações sintácticas mais recorrentes se fundam na causalidade (orações causais) e na consequência (consecutivas). nada na vida é acaso. tudo é caso.
um abraço, mai.
(agradeço as tuas leituras sempre tão especiais lá no viagens).

Adriana Godoy disse... @ 14 de outubro de 2010 17:50

Li alguns textos e gostei do vi. Muito intensos, fortes, de qualidade. Esse último é de chorar ...Volto mais vezes. beijo

Salete Cardozo Cochinsky disse... @ 14 de outubro de 2010 21:02

Foi uma agradável surpresa encontrar tamanha beleza e harmonia como BLOG.
Parabéns, vou passar a acompanhar suas produções.
Um abraço
Salete

Beto Canales disse... @ 14 de outubro de 2010 21:16

legal

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse... @ 15 de outubro de 2010 13:47

A violência é a imprudência da razão quando perde o seu sentido de ser humano. Onde quer que ela se exerça, o primitivismo vence, e a demência transforma-se na sua realidade.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 15/10/2010

Dani Pedroza disse... @ 15 de outubro de 2010 17:54

Eu estive aqui. Eu li suas palavras. Eu não soube o que comentar. A fome leva a um vazio na barriga, algumas coisas levam a um vazio na alma. Sabe como é, né?

Saudade de você. Bjs.

pablorochapoesias.com disse... @ 15 de outubro de 2010 18:24

Chego aqui para conhecer seu blog e me deparo com este texto. Forte, chocante, real demais. Escrito por quem de fato é observadora nata e sem dúvida nenhuma tem trato com as palavras. Elas estão no lugar certo, na hora certa. Minha palavra para o que encontrei aqui é: IMPRESSIONANTE.

APLAUSOS pelo texto e pela lucidez

Multiolhares disse... @ 15 de outubro de 2010 19:14

Continuas no teu melhor, texto forte, cortante, dilacerante, chega na nossa pele arrepiando, sentimos essa crua dor que vive nas ruas,gente que já não sabe o que é a vida real
Beijinhos

Anônimo disse... @ 15 de outubro de 2010 19:37

É a globalização da pobreza e o desemprego global. Foda!

tossan disse... @ 15 de outubro de 2010 21:53

Um resto de dor ou início de outra incapaz de deter esta fúria que nem os anjos, governos, polícias deterão. Descasos das contingências. Texto fulminante e fabuloso. Beijo moça

PS: Cuidado com os políticos depois de eleitos eles fazem o que querem mesmo contra a nossa vontade.

Lara Amaral disse... @ 16 de outubro de 2010 00:18

Todos avistamos isso, Mai. Este cotidiano mal muda de endereço, de realidade.

Beijo, querida.

Rafael disse... @ 16 de outubro de 2010 06:10

Fantástico, Mai, adorei a construção caótica do texto.
Bjs

Ilaine disse... @ 16 de outubro de 2010 06:58

Saudades de você. Saudades de te ler também. Ando distante, silenciosa. Perdoe!

Subordinadas orações- a impetuosidade que faz doer. Sim, a desigualdade que é feia e nociva para a sociedade.

Beijo, escritora!

Domingos Barroso disse... @ 16 de outubro de 2010 13:05
Este comentário foi removido pelo autor.
Domingos Barroso disse... @ 16 de outubro de 2010 13:05

Texto que se inicia com um olhar bucólico (a suntuosa imagem da serra) e por ela caminha até se encontrar com o homem, a outra face da Natureza. Uma face horrenda, indiferente e violenta.

Necessária indignação,
verdadeiro dedo em riste!

òtimo texto,
parabéns.

Carinhoso abraço.

Maria Paula Alvim disse... @ 16 de outubro de 2010 17:56

Pois é, a violência não é mesmo abstração. Parabéns pela prosa forte, contundente, Mai. Gde abraço.

Márcio Ahimsa disse... @ 17 de outubro de 2010 13:19

a violência é um caso,
das tripas ao coração,
um dejeto do descaso,
subproduto da negligência
tão fadada aos dias...
e a cidade chora seu ácido
mais corrosivo, e são concretos
e becos, todos tortos, anjos
da noite e do dia
equilibrando a sorte pelo
malabarismo selvagem da falta de sorte,
da falta de lugar, um canto, acalanto que os braços duros, as mãos em crosta das mães sem abrigo,
e são um estribo e sargeta, ode de nós, onde foi perdida nalguma senzala a morte mais desejada.

eu conservo em mim um fel amargo,
um dissabor por todos esses hipócrias que vão às telas da tv dizer asneiras. eu malfazejo essa mídia idiota que explora a imagem cansada de uma gente que sempre chorou seu sangue pelas entranhas das nossas veias, e agora dizem que são marginais, e agora dizem que que uma jaula é o destino mais correto. sim, as jaulas sempre existiram em meio a essa sociedade de merda, em meio ao concreto cru, aos paralepípedos, trafegando entre carros de bois a labuta diária, a pele bronzeada de tanto trabalho e escravidão. os homens só serão verdadeiramente homens quando pararem de escravizar os seus semelhantes disseminando a desigualdade de classes. já disse um dia que não desejo a igualdade de etnias, nem igualdade de cultura, mas a igualdade de respeito a todas as diferenças e substancialmente, a igualdade de condições de vida para todos esses filhos do mundo... sei que o sistema precisa de fome, precisa de baterias para alimentar as máquinas, sei que somos essa bateria que move o consumo, sei, tenho clareza dessa condição nossa no mundo. mas não aceito, morro anárquico, mas não me curvo diante da determinação do mundo.

Beijo Mai, acho que me excedi.

Adorei como sempre o que explana aqui em palavra e verso.

Aníssima Duarte* disse... @ 17 de outubro de 2010 15:34

Nossa, que explanação amgnnífica, verídica, sem exageros e de um senso crítico peculiar e sábio!
Parabéns pelo texto, mais que isto, pela verdade com que escreves, ou melhor, descreves!
Estou em www.anaconfabulando.blogspot.com
visite-me e confira as novidades!Abração.

betina moraes disse... @ 17 de outubro de 2010 18:46

mai...

cada linha, cada consideração que você fez aqui sobre a violência e suas raízes/tentáculos me levou
ao caos do beco sem saída.

que texto!

eu gostaria de poder conhecer você pessoalmente um dia, tenho admiração por sua visão das coisas.


um beijo.

nydia bonetti disse... @ 17 de outubro de 2010 23:24

bombas explodem em meio à nossa sala - estilhaços nos atingem. águas devastam cidades - e molham nossos pés descalços. mães choram seus filhos mortos - lágrimas espirram em nós. abutres à espreita pela próxima vítima da fome - já nem se assustam com os flashes. nós, absortos em nossas pequenas tragédias particulares, nem percebemos a infâmia: - mudamos de canal. nós, alienados evoluídos seres - animais humanos, nem percebemos: que ainda rastejamos.

que tempo é este Mai, que tempo é este...?!

beijo.

meioambienteabertoleiseabusos.blogspot.com disse... @ 18 de outubro de 2010 18:12

Oi Mai, boa tarde! Existe um poema do Gilberto Brandão que descreve bem o caos social e eu gosto muito, parte final do poema: Chamem mais um Doutor, mais um doutor, senhor!
Caviar e champanhe. Esqueçam a pinga e o feijão.
Peçam por pão e circo.Rezem por uns trocados.
Matem o professor de física. Matem a física!
Presas fáceis. Garras afiadas. Olha o bolso!
Segura a carteira. Segura o carro. Segura a casa.
Tudo muda de mãos, a moeda é o trinta e oito.
Tiros a metralhar, inocentes mortos, culpados vivos.
(Caos Urbano – Poesia Social)

Dauri Batisti disse... @ 18 de outubro de 2010 23:11

Querida Mai,

ando fora da blogosfera... depois, qualquer hora estarei voltando. Por ora passo aqui para agradecer o e-mail em que vc comunica a publicação do seu texto no site literário. Obrigado pelo carinho e parabéns. Qq hora virá um e-mail noticiando um livro seu... e ficarei ainda mais feliz.
Then, Take care of yourself... bye... see you...

Beijo

luanova.gtt@gmail.com disse... @ 19 de outubro de 2010 17:38

Notícia de Jornal
Chico Buarque

Tentou contra a existência
Num humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal João.

Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.

Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de João
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal.

Seu texto é maravilhoso e trata de um assunto tão dramático.
Acho que o que não conseguiria dizer com mais propriedade do que o Marcoantonio, tudo o que gostaria de dizer. Faço minhas as palavras dele.
Mirze, minha admirável poetiza.
Beijokas.

Marcelino disse... @ 3 de novembro de 2010 18:29

Gostei da tua crônica, o título extremamente adequado e revelador: as primeiras orações, bucólicas, como disse o Domingos Barroso se subordinam à crueza da orações seguintes; a poesia se subordina à vida, mas a recíproca também é verdadeira.

Carlos de Thalisson T. Vasconcelos disse... @ 8 de novembro de 2010 15:02

E lá vamos nós outra vez fechar os olhos enquanto anda.

NDORETTO disse... @ 10 de novembro de 2010 22:37

Mirze, entrar aqui é uma delícia. Eu saio da minha mesa e faço vôo direto pra sua fantasia.
Musica e poesia, textos delicados,alta literatura. De uma beleza indizível, pronto!
Bjs,
Neusa

Maria Luisa Adães disse... @ 14 de novembro de 2010 08:13

Mai

Quando se entra na vida, com orações ou sem elas,
temos um lado bom, outro mau.
Outros não têm escolha,
entram pelo lado mau!

E sobreviver nesse lado, é uma luta violenta, titânica, monstruosa
impossível de ser Humana.

O texto é impecável, na sua dignidade humana.
Na forma como está escrito, sentido, apresentado.

Aí nos traz um labirinto da vida, sem fios para encontrar a saída.

"O mal é permanecer de braços cruzados", chorando a desdita.

Continuo a dizer:

é difícil entrar no seu âmago,
dissecar seu íntimo ser
e a trazer ao convivio real
de quem por razões, só suas, não quer olhar o problema.

E quem tem muita pena,
Olha o outro lado mais serena
e tenta esquecer este lado,
esquece o muito sofrer.

Toma o lugar dos indiferentes
e como disse "Luther King"

"Eu temo o silêncio dos bons"

Bom Dia Mai

Maria Luísa

Maria Luisa Adães disse... @ 14 de novembro de 2010 08:24

Mai

De quem é a culpa, me diz...

Para mim:

A culpa é de todos,
mas melhor do que eu,
"Luther King",

explica de forma simples os seus medos...muito simples, mas que abrange todos.

"Eu temo o silêncio dos bons"

Maria Luísa

Luciano Fraga disse... @ 15 de novembro de 2010 09:28

Mai, lembrou-me os versos de fausto Nilo/Fagner:

"Calma violência, violência calma
E a pureza da minh'alma
E a minha inocência
Calma violência, violência calma..." Fotografia em 3x4 de um mundo atordoado, sensibilidade em seu belo texto, abraço.

Sobrepuja - se disse... @ 16 de novembro de 2010 14:04

Interessante o post
estarei sempre dando uma passadinha por aqui Bjus

Walkyria Rennó Suleiman, disse... @ 28 de novembro de 2010 19:56

Mai...
tento fazer da violência uma abstração. Nào vejo TV, não leio jornal...mas então leio teu blog e sei, sei mesmo que tudo isso existe.
Não, não minha amiga, não há mesmo como deter as paixões humanas....dentre elas a fúria!

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