Minha rotina natalina é desapegada das tradições. Os homens que se vestem de papais-noéis, sempre me pareceram melhores, do que a lenda. Uma das poucas coisas que consegui manter neste natal que passou, foi o hábito que tenho de, a cada natal, pegar nos correios, uma carta, para atender os sonhos de uma criança. Escolhi como sempre, aleatoriamente, a de um garoto – Miguel. Ele pedia ao papai Noel, uma roupa e um par de tênis. Dizia que seus pais, lavradores simples, não poderiam dar. Faltava-lhe dentre muitas coisas, inclusive, comida. Miguel dizia, que só estava pedindo porque, tanto roupa como tênis, estavam furados. Um garoto de 9 anos, é Miguel. Antes de viajar entreguei o presente. Acrescentei três carrinhos. Criança sonha com brinquedos. Miguel não era diferente. Precisava de roupas mas sonhava com brinquedos.
Ontem, antes do embarque, fui até uma farmácia homeopática. E, enquanto aguardava, vi numa prateleira, medicamentos florais com as seguintes indicações: “baixa auto-estima”, “carência-agressividade”, carência-depressão”... (sintomas emocionais). Surpresa percebi, que eram medicamentos veterinários. Florais para cães. Achei interessante, ainda não conhecia. Mas fiquei pensando... - Finalmente terei que me debruçar sobre algo que jamais pensei estudar – “A Subjetividade Canina” – Aquela frase: “Cachorro também é gente” enfim, é algo real. Talvez, eu devesse estudar.
Gosto muito de animais. Tive três adoráveis cães. Cuidei, dei-lhes carinho, liberdade e Joguei bola com todos. Eles eram viciados em esporte. Ultimamente me questiono se fiz tudo o que deveria por: Portus, um Cocker, Quito, um Pastor e Bonsai, um Lhasa-Apso com pedigree e tudo... Eu nunca permiti que dormissem em minha cama e, jamais, os deixei lamber ou beijar minha boca. Admirava e recompensava seus feitos. Também gostava de assistir, atenta, às exibições e reações de cada um, em seus instintos animais.
Cheguei hoje de viagem, após 10 dias. Tentava dormir quando fui, “obrigada” a desistir do meu repouso. PRINCESA, uma minúscula cadela vira-latas corre e late, o dia inteiro, no terreno da casa vizinha. Aliás, Princesa (assim, com letra maiúscula) não late, ela fala. Princesa pensa. Mais que isto, Princesa “pensa” que é gente. Porque Regina, minha vizinha, “fala” fluentemente, um dialeto canino com o qual, se comunica, em tom amplificado e equalizado. A fofoca se dá em agudos que ferem os ouvidos e o direito do outro, ao sono. Regina e princesa conversam alto, um inacreditável diálogo onde, uma pergunta e a outra, imediatamente, responde.
Princesa não vai à escola, mas sai para passear todas as tardes, com sapatos novos e coloridos (quatro sapatos, óbvio). Hoje ela vestia, em seu passeio, um novo modelito. Talvez tenha sido a sua roupinha de natal - um modelo cor-de-rosa, que deixou princesa, fashion e sexy. Ela usava uma calcinha de babados. Lamentavelmente hoje, era perceptível nela, o incômodo uso de absorventes higiênicos – (coisas de mulher...) Uma mini-saia de babados, rosa, deixava faceira, princesa, para terror do labrador (cabeção) Maguila que, em vão, baba atrás de princesa. Os seios não estavam nus. Ela compunha o seu figurino, com um top. E, completando o seu look, dois lacinhos, denotavam a sua feminilidade. Uma cadela-perua, poderíamos dizer. Nada falta à Princesa. Eu não tenho qualquer dúvida, Princesa tem vontade própria e personalidade forte... Regina faz tudo o que ela quer.
Princesa, como eu disse, PENSA mesmo que é Gente e, mais que isto, ela É uma princesa.
Mas ocorre um problema sério, nesta relação emocional entre as duas. Regina trabalha e se ausenta, todas as quartas-feiras retornando, apenas aos sábados. Desde quarta até o sábado, princesa definha... gemendo em grunidos lancinantes, o seu sofrer... Me preocupo com os níveis de tristeza e depressão da cadela-real. Porque penso que ela, é uma vítima dos excessos. Mesmo assim, inevitavelmente me irrito. Sobretudo quando quero dormir, e não consigo.
Princesa geme alto, um sofrer tão compreensível, que quase traduzo. É algo meio assim: Aiaiaiaiai meu deus, como eu sofro de saudade...aiaiaiaiaiaiai.
Esta é a interpretação que faço, leigamente, porque eu sou ignorante neste idioma.
A questão que se configura como dramática é que, justo ali, na ausência da Regina, e, somente às quartas-feiras, Princesa se defronta e se conecta, com uma triste realidade: Ela É, uma cadela e não, uma pessoa. A partir das quartas-feiras, princesa, que tem copo e come em prato, passa a comer em uma tigela, e bebe água em uma bacia de alumínio, a triste vida animal.
Com sono, cansada e sem conseguir dormir, lembrei Miguel, os florais, e a inversão dos papéis – vida real e vida de cão.
Me perguntei... quantas garotas e garotos de nove anos, tem, na vida real, uma vida de príncipe ou “PRINCESA” com amor e atenção? E me lembrei que muitos, tem uma vida de cão.
Desisti de dormir. Princesa me fez escrever e pensar, apesar de cansada. Princesa é mesmo gente!
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