Inspirar-Poesia, um segundo sopro

arquitetura e espaços

Por Sueli Maia (Mai) em 5/13/2010
Plácida e salina, migrando com água à superfície. Fendas nas camadas degradadas, abriram espaços entre as vigas e os vãos. Por trás das fachadas, rebocos das húmidas e vazias manhãs. Por dentro: sulfatos, nitratos e cloretos garantem - permeáveis - as paredes calorosas sem fissuras nos betões. Guardo-me intacta. E há recintos com minúcias ocultas e claros espaços nas salas e quartos de nós. Abre as portas, entra, cava-me. Há estâncias minerais daquilo que te é potável. Reboca-me e à reboque a tua e a minha liberdade e direção.
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Texto reeditado
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Arte: Tarsíla do Amaral
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o voo

Por Sueli Maia (Mai) em 5/06/2010
Deixe-me dizer sobre as palavras que me chegavam ligeiras, em bandos. Essas meninas esquivas estão em suspenso, como poeira cintilando num raio de luz que a mão quer reter, mas não consegue. Já rolei com palavras em sonhos, dancei, dissolvi-as na língua e com pimenta até saboreei demorado. Este é um voo de palavras e houve momentos em que as senti se aproximar e ensaiei escrever. Mas as palavras arremeteram a aterrissagem e arredias voaram novamente. É, estou sem palavras e não sei por quanto tempo elas ainda se aterão a esse capricho de, por pirraça, me fazer esperar. Talvez elas saibam que só em silêncio se consegue sentir e consolar tristezas. Enquanto elas voam eu deixo aqui o frescor de palavras meninas a soprar uma brisa de beira de rio, plantando desejos.

Música: Jacques Morelembaum

ponto cego

Por Sueli Maia (Mai) em 4/08/2010
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Há um lixo que em todos os sentidos, subjaz nas grandes tragédias.
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cerquilhas e sustenidos

Por Sueli Maia (Mai) em 3/24/2010
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No cartaz em cores, três fotografias detalhavam o instrumento. A madeira era imbuia em alto brilho e o móvel parecia em bom estado. Olhando friamente pensei: - um piano não é mais que isto, é apenas um instrumento a serviço da música. A tomar pelo modo como a vi tocá-lo foi possível supor que eu poderia estar enganada. Mais que um piano a negociar, aquele móvel parecia ser um ente. Como se os dedos fossem olhos a mirar um corpo com desvelo, seu toque deslizante trazia bem perto uma garganta ou uma voz. Algo mais sutil que a melodia soou numa linguagem corporal silenciosa. Sem pressa pôs-se de pé frente à banqueta, estendeu o feltro e após mais um afago ao teclado, fechou o instrumento. Assim restou e após um suspiro debruçou sobre o piano, numa espécie de abraço que não abarca, todavia. Mas algo foi contido enquanto um casal examinava com minúcias o instrumento. E entre bemóis e sustenidos os potenciais compradores apreciavam a melodia, segurando uma cópia do anúncio: - vendo piano Fritz Dobbert.



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agrícolas

Por Sueli Maia (Mai) em 3/17/2010

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Em sulcos, a terra se entregou ao lavrador. Como um deus a semear canteiros, o jardineiro soprou esporos, deitou sementes e cruzou espécies em variados tons de lilás. A vida se engendra e fervilha em meio ao humus.
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plurais univitelinos

Por Sueli Maia (Mai) em 3/11/2010
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A alma da noite tem cheiros, sabores e surpresas. E a madrugada é longa ou curta, alegre ou triste como tudo, mas quando o ofício é cantar há na noite o calor de um sol. Eu já havia decidido parar quando Dirceu chegou. Uns poucos casais ainda estavam no bar, me animei e recomeçamos. Parceiro há muito, Dirceu sabe o meu tom em cada melodia e pelo entrosamento, a divisão é uma delícia e invertemos o ritmo em algumas músicas. A comunicação flui entre olhares, sombrancelhas e acenos e se traduz em um repertório que se espalha noite adentro. A música chama memórias, acende os humores, as histórias e os amores. Dirceu sabe a hora de tocar bossa nova e sabe quando é preciso um blues. No escuro do bar se percebe a madrugada pelas mesas vazias como a rua, o que ajuda na acústica. Para minha surpresa chegaram já tarde - Luíza e Lizandra. Muito de mim acompanhou o crescimento dessas duas. Eu sempre soube que Luíza não gostava da noite. Idênticas no rosto, no corpo e na voz, por um ângulo misterioso se consegue diferenciar uma da outra. Mas, enquanto Luíza tem a disciplina dos trens, Lizandra é a mais pura liberdade. Vogais e consoantes, uma flui e a outra contrai. Luíza esteve noiva por anos e Lizandra voltou da Europa esses dias. O garçom serve um vinho e um malte. Luíza acena para mim e o garçom vem vindo com pedidos das duas em dois guardanapos.

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Imagem: Jana Magalhães

também sei falar de amor

Por Sueli Maia (Mai) em 3/10/2010
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Dura mais que um instante o prazer que pra sempre guardarei em mim. A beleza do teu corpo quente, teu cheiro, tua pele de cravo e canela da China, da Índia, do mundo de mim. Dura mais que um instante, toda essa alegria de estar em teus braços e ficar em ti. Dura mais que um instante o interminável momento em que a luz miúda dos meus olhos revela teu riso de gozo que - pluma, deixaste meu corpo e minh'alma. Daí falo baixinho, me escuta, acredita, sou louca por ti. Eu te amo!
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texto reeditado
escrito em dezembro de 2008

a relatividade do lounge

Por Sueli Maia (Mai) em 3/10/2010
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Existe um lugar onde as coisas se assentam sem pressa de ir. Nada a dizer senão ouvir e calar. Vinho, vulgos vultos, vozes. Música ao longe e lounge é um desses lugares em que a pensar ela se demora. Nada a fazer senão esperar ou sumir. Longe não tarda a chegar e ela já está bem perto.
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