Inspirar-Poesia, um segundo sopro

restinga de nós

Por Sueli Maia (Mai) em 12/10/2009
Há lugares intocados e tão fundamentais como as restingas onde a preservação se dá, justamente, pela falta de acesso do homem ou porque, ao redor, todo o mar é bravio e turvo. Acordei lentamente e sem voz. A garganta não dói mas ressente as horas seguidas sem nenhuma palavra vibrar. Quebrar o silêncio sem nada acrescentar ou dizer, é tão inútil quanto a lavagem compulsiva de mãos fora da lida, quando o que se tenta lavar não está nas mãos. Há restingas de nós e em nós e há silêncios tão necessários como as áreas restritas de restinga. Há lugares assim, abundantes. Há dias assim onde tudo além da natureza e do tempo é um lixo degradante e nocivo. É delicado caminhar sobre o que arde. Mas se o sagrado se contempla na hora exata do querer, a consciência só desperta quando queima uma chama e dói. Estou numa faixa de areia onde a vegetação toca o mar mas que pode acabar na elevação do nível dos oceanos.
.

Imagem Google
Música: Mozart

43 comentários:

Mário Lopes disse... @ 10 de dezembro de 2009 11:46

Como uma papoila num campo verde que nada fez por nascer, cujas pétalas de sangue vivo ferem os olhos à luz do sol, mas que a cada momento poderão ser levadas pelo vento mais suave, tão frágeis e delicadas são, assim são os teus pensares, querida Mai, assim és tu: no limiar da chama, até arderes por completo e seres o próprio ar.

Que texto mais lindo, que papoila mais intensa nos colocas nas mãos!
Beijo terno para ti, para o teu grito.

Leo Mandoki, Jr. disse... @ 10 de dezembro de 2009 12:35

gostei bastante da foto...e o curioso e que a impressão que tive ao ve-la foi que ela seria super adequada para o meu último post. Vc eu não, mas eu estou longe de ser ou de ter restingas dentro de mim.
saudações bloguistas

paula barros disse... @ 10 de dezembro de 2009 12:41

Quebrar o silêncio...antes que o silêncio nos quebre.

Romper o silêncio...que nos rompe.

Você acredita que há pouco estava escrevendo sobre o silêncio. E o quanto o silêncio do outro acorda os meus fantasmas.

O silêncio do outro me deixa cheia de vozes.

E por isso essa parte do seu maravilhoso texto é que me chamou a atenção.

beijos barulhentos rsrs

Vivian disse... @ 10 de dezembro de 2009 13:00

...nunca ouvimos tanto de nós
mesmos e do outro quando em
profundo silêncio.

adoro te ler, querida linda!

bjbj

Mikaele Tavares disse... @ 10 de dezembro de 2009 14:47

Sem palavras...
Seus silêncio foi bem expresso..
Beijos

guru martins disse... @ 10 de dezembro de 2009 15:46

...no Rio temos
a Restinga de Marambaia
extensa e implacável
como um arpão gigantesco
numa ponta um delta de areia
que desenha uma bacia
uma bahia uma trégua...
um pouco antes uma imensa barriga
margeada por um estreito
que de um lado e de outro
nos propõe a desolação azul
o oceano medonho e desafiador
como um Everest líquido
perde-se o chão
não dá pè
nos faz lava as mãos
com pul si va men te...

bj

Lara Amaral disse... @ 10 de dezembro de 2009 16:05

Encontrar o intocável, misturar-se a ele e sentir que ele entende o seu silêncio. Lendo-te aqui, sinto que vc entende, qualquer que seja ele.

Beijos.

Fábio disse... @ 10 de dezembro de 2009 17:06

Todo mundo tem dentro de si um lugar preservado que não deixa ninguem chegar perto. Protegido, uma espécie de reserva mesmo. Intocável para maioria das outras pessoas.
Essa minha reserva é enorme, tipo a parte submersa do iceberg

Abraços.

Mirse Maria disse... @ 10 de dezembro de 2009 17:50

Lindo Mai!

O intocável, numa restinga ou não merece todo nosso sagrado respeito!

O silêncio é a dadiva que nos recompensa!

Parabéns, amiga!

Beijos

Mirse

Kanauã Kaluanã disse... @ 10 de dezembro de 2009 18:27

Ser este corpo de areia estendido à beiras-águas, e estender entendimentos por onde a irracionalidade humana não alcançou ainda os instantes.

Uma paisagem que precisava habitar em mim, Mai.

Beijo carinhoso.

Katyuscia.

iaiá disse... @ 10 de dezembro de 2009 19:10

é tão difícil chegar a certos pontos, a paisagem é tão inóspita que ao chegarmos não sabemos bem como pareciá-la e tendemos a querer voltar pro aconchego do conhecido, é preciso saber e parar e olhar o novo mundo...pode ser muito mais belo.

Patrícia disse... @ 10 de dezembro de 2009 19:24
Este comentário foi removido pelo autor.
J.F. de Souza disse... @ 10 de dezembro de 2009 19:27

Um minuto de silêncio

quero sentir
a leveza
da paz

e que seja
berve
e
fugaz

=)

=*

J.F. de Souza disse... @ 10 de dezembro de 2009 19:29

Ah! Aproveitando... Queria te convidar pro Amigo Poético do B7C deste ano!

http://blogdesete.blogspot.com/2009/12/amigo-poetico-ano-2.html

Que tal? Tá afim?

Participa! Vai ser legal... =)

=*

Caio Fernandes disse... @ 10 de dezembro de 2009 20:17

tou sem palavras Mai ... elas seriam inuteis agora .

Macaires disse... @ 10 de dezembro de 2009 21:31

É no silêncio que se diz o indizível e também no silêncio, se preserva o que poderia ser destruído com palavras!

Adorei o texto, amiga!
Grande beijo!

Dauri Batisti disse... @ 10 de dezembro de 2009 23:09

Maravilha de texto, dizendo tudo. Há uma poesia que se alonga, se alonga, vai no azul das palavras que você diz............. e faz bem.

Beijo

Patrícia Lage disse... @ 11 de dezembro de 2009 00:25

É verdade. Mas o lugar mais intocado que conheço é este aqui dentro.

Ando meio... Sabe? Pois é.


Lindo, lindo, lindo texto, máxima-máxima.

Muitos beijos e saudades de você.

tossan® disse... @ 11 de dezembro de 2009 09:06

Você e o Mar são iguais...Com restingas. Belo texto. Beijo de saudade

Assis Freitas disse... @ 11 de dezembro de 2009 09:41

O mar de silêncios que nos atravessa. Às vezes a solidão é plural. Beijo

Daniel Hiver disse... @ 11 de dezembro de 2009 11:21

Mais um belo exemplo de algo poético e profundo. O que quer que tenha tentado dizer, ao falar dessas "restingas de nós que há em nós acompanhadas de silêncios tão necessários como as áreas restritas de restinga", me fez ficar aqui pensando nos meus silêncios, de tão difícil acesso quanto as áreas de acesso proibido de preservação ambiental.

Um belo final de semana!

Pâmela Marques disse... @ 11 de dezembro de 2009 13:20

Acho incrível como você consegue nos envolver com tuas palavras. E eu fico pensando: "como o silêncio é ensurdecedor." Algumas vezes também.

Nydia Bonetti disse... @ 11 de dezembro de 2009 16:23

Que texto, Mai. Me fez lembrar o Gil:

"Beira do mar
Lugar comum
Começo do caminhar
Pra beira de outro lugar"

Também me sinto assim, "à beira".


beijo.

Ana Rita disse... @ 11 de dezembro de 2009 18:17

Olá Mai! Opá, há tanto tempo. Como esta tudo na tua tua vida? Esta tudo a correr bem?
Olha em relação à pergunta que fizeste, sobre a foto, sim sou eu a do meio na ultima fotografia. Foi um belo dia aquele.

Mai, espero resposta e um beijo de Portugal. (:

(estou sem inspiração.)

Compondo o olhar ... disse... @ 11 de dezembro de 2009 21:15

tem selinho p vc no compondo o olhar, passa lá p pegá-lo.

bjocas

http://ivafpacini.blogspot.com

Luciana Marinho disse... @ 11 de dezembro de 2009 21:25

belo e inspirador
teu texto.

:como sois abundante, desertos,
quando é em mim que a tua terra arde:

um abraço!

Jacinta Dantas disse... @ 11 de dezembro de 2009 22:49

E parece que estamos todos assim: na margem do transbordamento. E gente quando transborda (re)conquista o espaço de ser gente, de fato, como deve Ser. Sei lá, seu texto me faz divagar na esfera do que sinto como adormecimento.
Beijos

Desmanche de Celebridades disse... @ 12 de dezembro de 2009 12:08

Bela metáfora, como sempre.
Vamos torcer para que eles não acabem com este espaço humano da restinga, como fizeram com o espaço humano do mangue. Para que não construam pedra sobre pedra em lugares de paz da consciencia.

Abraços.

Filipe Garcia disse... @ 12 de dezembro de 2009 14:40

Me encanta, Mai, o fato de qualquer coisa virar poesia em suas mãos.

Beijos!

Filipe Garcia disse... @ 12 de dezembro de 2009 18:35

Ih, Mai... a Mono começa agora. Antes eu precisava apenas de um "projeto" pra definir o tema, sabe como? A partir de janeiro eu começo as leituras e redação. Ai, ai... rs

Beijo!

ONG ALERTA disse... @ 12 de dezembro de 2009 19:53

Lindo o lugar, nos leva ao infinito do mar, paz.

Batom e poesias disse... @ 13 de dezembro de 2009 11:11

Você escreve bem demais, mulher!

"É delicado caminhar sobre o que arde".

Dá vontade de chorar, de gritar um "palavrão" só por gritar, mas "quebrar o silêncio sem nada acrescentar ou dizer, é tão inútil quanto a lavagem compulsiva de mãos fora da lida, quando o que se tenta lavar não está nas mãos".

DeMais
DeMai

bj
Rossana

Lau Milesi disse... @ 13 de dezembro de 2009 13:40

May, hoje é um dia em que estou dando vasão às minhas "áreas de restinga".

Muito obrigada por poder te ler. Você não imagina o quanto me fez bem.
Um beijo e um belo domingo pra você.

Cosmunicando disse... @ 13 de dezembro de 2009 13:52

sensacional... sem palavras.

Márcio Ahimsa disse... @ 13 de dezembro de 2009 14:08

Houve dia em que meus pés rachados eram apenas caminhar em pedregulhos, algum caminho ornado de paralelepípedos, aqueles cubos de pedra que moldavam mais uma maneira de viver, do que propriamente a rua em que eu passava... mas a linha fundamental de tudo estava no caminhar: e esse ístmo que me ligava aos caminhos possíveis do mundo era-me absoluto: eu era um luto guardado da minha morte vindoura, era uma sorte e uma pétala prestes a sujeitar-se na iminência do cair, desprender-se da seiva e ilustrar o tempo como uma chuva vento pelo instante fecundo. mas o caminhar, esse caminhar permanece, agora não mais apetece o magro coração, não mais desvirtua de pulsar com a madrugada alguma insônia mal cuidada. pois cuido das inquietações como quem cuida de beber água no saciar da sede. agora, há vestimentas que me vestem meu corpo pequeno sem esquecer de guardar o moreno da minha pele. mas o que digo, não são palavras, nem sentimentos, são acasos. e esses vagos momentos são rasos e profundos e eu volto novamente ao instante supremo da criação do caminho sem rumo. mas a palavra me beija os lábios e me sente ainda morno... eu não sei onde estarei, não sei se essa areia fina é um véu transparente, mas sei que é um escarcéu de tempo estendedo meu viver para além da imensidão do mar...

Beijos, querida.

Multiolhares disse... @ 13 de dezembro de 2009 14:35

Existem silêncios que são abençoados mas outros que sendo silenciosos gritam e ferem a alma.
beijinhos

Cosmunicando disse... @ 13 de dezembro de 2009 15:29

a honra é minha, Sueli, em divulgar esse texto maravilhoso.
obrigada pela tua mensagem ;)
beijos

Barbara disse... @ 13 de dezembro de 2009 17:18

O que escrevestes está bonito porque é mais real e comum do que pensas mas pensas e escreves com essa naturalidade tão bela,porque o vives agora.
Pois que viva!
Não há de afundar quem de restingas entende.

dade amorim disse... @ 13 de dezembro de 2009 18:36

As restingas são assim mesmo, simbólicas, essenciais para a natureza como o silêncio com que resguardamos o que não queremos que se perca.
Lindo texto, Mai.
Um beijo pra você.

Lisa Alves disse... @ 13 de dezembro de 2009 20:08

é como tocar a neblina e sentir as mãos derreter e a consequencia disso ser tão prazerosa quanto sentir o beijo do mar nos seus pés. Ah entrei na atmosfera de suas palavras.

"Há lugares intocados e tão fundamentais como as restingas onde a preservação se dá..."

Abraão Vitoriano disse... @ 14 de dezembro de 2009 12:04

"É delicado caminhar sobre o que arde."

Reconhecer vida é se ferir, é se viver, e nisso nem um de nós passa ileza pelas águas mornas e geladas do rio... Paisagem no plural é frequentada por turistas e mortais, o que abriga sujeiras e palavras sem noção nas barracas com peixes de pouca espinha, agrado a freguesia... já nos cenários intímos, só as sombras conseguem trafegar, não há vendedores de cocar, e você é faxineiro e juiz... aquele mar calmo azul
nem sempre representa bondade,
às vezes a rede se rasga com peso de mentiras, e o plano de fundo é areia e mentiras... Cuidado na hora do pincelar...

beijos mai minha,

do seu homem-menino-de-volta-mais-livre...

Roselaine Funari disse... @ 14 de dezembro de 2009 14:12

Que delícia te ler!
Parabéns.

dade amorim disse... @ 14 de dezembro de 2009 22:26

Mai, fiquei contente com sua presença, é das mais bem-vindas.
Uma visão geral do Inspirar só confirma o que já pensava antes - um blog competente.
Quanto à playlist, não faça cerimônia, vamos partilhar, ou se você quiser, alternar nossos queridos.

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