um conto de um conto de rés
Por Sueli Maia (Mai) em ensaios e contos 1/11/2010.
A cama estava desfeita. Ao chão, os adornos e as roupas se empilhavam e sobre a mobília, apenas uma toalha em desalinho. Os cacos de vidro restavam espalhados rente à parede oposta aos móveis. Quando enfim decidi atendê-la, encontrei-a de pé. Ainda se via beleza naquele desleixo. Os longos cabelos ensejavam pentear. Há um estado de humor que afeta os sentidos. Em meio à desordem andava de um lado ao outro e parecia esperar. Minutos de silêncio eram rompidos por soluços e tosse que entrecortavam a respiração. A obsessão turva a mente e ensurdece. Não percebeu a minha chegada e porque subitamente olhava para os lados e para trás denotava pressentir, além de nós, outra presença. Vez outra esfregava o peito e afagava o retrato que mantinha em abraço. Se era o mesmo da parede ainda era moço e era sério de feição. Ao serviço eu já estava acostumada mas, porque demorava, a agitação aumentava e eu me entretinha a observar os detalhes da casa. Os cheiros entranham - mais na madeira e nos livros. Esse bordado largado sobre a mesa fazia concluir que o tempo, ali, não havia seguido. Tudo é mais fácil quando se está preparado a abandonar. O meu tempo era outro e para seguir, faltava ela terminar, se despedir. Mas quando eu a encarei nos olhos, o porta-retratos caiu, ela gritou e lutou, mas eu a peguei de jeito.
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