Inspirar-Poesia, um segundo sopro

oásis...

Por Sueli Maia (Mai) em 9/21/2010
Areal de beduínos, lençóis, e a lenta miragem ondulando em sol posto, era um oásis e tudo aquilo era ele, era eu e era nada que ao mirar, a minha boca umedecia e dos meus olhos choviam brilhantes. Olhos d'água e eu bebia com o olhar as tuas águas e pedia sem falar, vem, mas vem de mansinho, tenho sede. Eu também sou água e sei, matarei tua sede na minha sede até que os corpos cansados tenham força prá seguir. Vês? É um oásis e a certeza de encontrar, beber, fartar e por fim, umedecer uma boca noutra boca ressequida nesse inóspido deserto que por certo, será fértil por nós dois. Marcas, passadas e as pistas deixadas nas dunas eram corpos ondulando um no outro sob o céu que espargia seu lume. Sonho, oásis, miragem e tudo era pouco e bastante prá nós dois. Céu protegendo, és fonte e eu sou água sob o céu de um sol posto. Bebe-me inteira, bebamo-nus e dá-me o remanso, aos goles. E quando as primeiras estrelas cairem no céu dos meus olhos, eu quero teu riso no meu. Vem! Dar-te-ei minhas águas. Então rega essa minha estiagem que é noite. E essa noite é tarde e estou rouca de gritar prá dentro, estou louca por dentro, ardendo também e quero cair em teus braços. Deixa-me morrer, só esta noite, tu és meu oásis e os teus braços me abraçam e me deito nesta cama que é , um areal de beduínos.
Imagem: Google
Música: Ryuichi Sakamoto e Richard Horowitz
Trilha de "O céu que nos protege"

lugar comum

Por Sueli Maia (Mai) em 9/18/2010



A costura sempre fica entre o alinhavo e o arremate,
mas para escolher melhor é preciso estar atenta aos detalhes no avesso do tecido.




Meu voto sou eu que escolho, por isto voto em MARINA SILVA
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"Nada mudará na sociedade se os mecanismos de Poder
que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado
a um nível muito mais elementar quotidiano, não forem modificados"
(Michel Foucault)
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sempre mar

Por Sueli Maia (Mai) em 8/20/2010
Premências de amar em mar, um amor. Do que me falta, pondero a falta. E se me basto por me amar, eu faço o pacto de te amar em tua falta. Perenidades de um vazio em nossas fomes, nossos quereres, esses são tudo, esses transbordam. Assim, amar-te em mar de amor é tudo e nada. Minha desordem é que te amar, prá mim é sempre, sempre te amar. E o sempre é tudo e sempre, é nada!
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Fotografia: SMaia

biografia de tantos nadas

Por Sueli Maia (Mai) em 8/19/2010
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Nem sempre nos damos conta, mas nem tudo nesse mundo é o que aparenta ser, nem tudo é o que se quer. Assim é que o rochedo maciço lá do alto, se transforma simplesmente em uma imagem, e na água escura do lago, ele pode ser tocado, sentido e no toque das mãos recolhido, para depois escorrer pelos dedos, gotejar no chão e sumir na terra. A gente perde muitas coisas vida afora, é fato, mas ganhamos outras tantas ao longo do viver. Pequenas coisas, assim como gestos singulares, podem colorir a mesmice cotidiana. Na solidão plural, os dias se fazem diferentes com um simples bom dia, um abraço, um sorriso ou um e-mail singelo. Pequenos nadas que podem ser o bastante para fazer um dia ser diferente. Ontem foi uma noite muito fria, a noite mais fria de toda a minha vida e eu tenho 52 anos. Por instantes eu pensei que não conseguiria me controlar, me aquecer... E lembrei dos tantos que estão sem abrigo e por fim, me encolhi, tremi calada até dormir. Hoje o meu coração se aqueceu com um desses gestos. O poema "Balada de tantos nadas incontidos", escrito pelo poeta José de Assis Freitas, um tudo que pode ser lido em:ww.mileumpoemas.blogspot.com/2010/08/311-balada-de-tantos-nadas-incontidos.html.

Obrigada, Assis, guardarei para sempre


Fotografia: SMaia
1 Lago Nova Friburgo Country Clube
2 Leito do rio Lumiar
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incontido

Por Sueli Maia (Mai) em 8/17/2010
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O mar da minha terra é como eu. Primeiro se arrebenta nos corais e arrecifes, e espraiando no alto se espalha e expande, marcando lugar. E domado ele rola miúdo e mansinho, na beira, na areia, olhando pro sol. O ar da minha terra está em mim. Porque ele inspira, insípido, invisível, as mais fortes paixões. Depois ele exala o tempero e cheiro das índias e suas especiarias. Os rios da minha terra correm em minhas veias, e lembram Veneza que deita seus veios, sem rumo e sem foz. O chão da minha terra é meu plexo, meu nexo, oriente e nordeste, porque é nele que nascem mangabas, goiabas, sapotis e cajás, que no pé, eu trepo faminta e no alto eu pego, o fruto maduro que eu quiser chupar. O mar da minha terra é como eu, nada contém.
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Escrita em 16/12/2008

o ponto e a linha circular

Por Sueli Maia (Mai) em 6/24/2010

A linha, o ponto e o lugar do encontro. Amigos no ponto de encontro e sem espera a condução das 6:15 logo sai. Mas tudo ao redor cheira a restos: - amônia com bebida entre as pernas e o cigarro que exala dos poros é náusea. Mas é um corpo que transborda do trago e tombado se enrosca nos trapos e tenta viver, se aquecer. Aos tombos chacoalham os corpos de pé nesse ônibus. 6:20 - trânsito, e tudo hiberna na preguiça das manhãs. Droga fumaçando nas cabeças. Paciência! É mais um sopapo e espio lá fora o que sobra do calor das fogueiras quase mortas, e há tantos quase mortos lá fora e aqui dentro à margem de tudo. Quase morte é a mistura dos odores dos corpos acebolados que roçam em quase silêncio de um sono a teimar. Paciência com os buracos das ruas e os zumbis transitando, roçando, pulando, acordando, se olhando e voltando a dormir, a roncar, a babar. Paciência! Há corpos chacoalhando aos solavancos dos buracos que são tantos e tantos também são os solavancos dessa vida, que as mãos quase não dão conta de segurar com paciência. Na volta há diálogos inaudíveis e dá vontade de cantar e espantar antes que em outro solavanco eu morda outra vez minha língua e outra vez, eu suspiro! Cruzo pernas com olhares e olhares com sorrisos. Frente à casas fechadas vassouras a varrer calçadas e as fachadas dos empórios vazios são bares com copos vazios caídos sobre as mesas. De pé equilibrio de cansaço com a ressaca das garrafas alegres que ontem dançavam. Final de um dia e um sol deixa em cores um laranja e o amargo das laranjas nas línguas e no céu dessas bocas há olhos de outra noite em que escrevo sem pressa, o impaciente tempo dos homens. 6:15 é a chegada dessa linha circular.
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Texto reeditado
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arquitetura e espaços

Por Sueli Maia (Mai) em 5/13/2010
Plácida e salina, migrando com água à superfície. Fendas nas camadas degradadas, abriram espaços entre as vigas e os vãos. Por trás das fachadas, rebocos das húmidas e vazias manhãs. Por dentro: sulfatos, nitratos e cloretos garantem - permeáveis - as paredes calorosas sem fissuras nos betões. Guardo-me intacta. E há recintos com minúcias ocultas e claros espaços nas salas e quartos de nós. Abre as portas, entra, cava-me. Há estâncias minerais daquilo que te é potável. Reboca-me e à reboque a tua e a minha liberdade e direção.
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Texto reeditado
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Arte: Tarsíla do Amaral
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o voo

Por Sueli Maia (Mai) em 5/06/2010
Deixe-me dizer sobre as palavras que me chegavam ligeiras, em bandos. Essas meninas esquivas estão em suspenso, como poeira cintilando num raio de luz que a mão quer reter, mas não consegue. Já rolei com palavras em sonhos, dancei, dissolvi-as na língua e com pimenta até saboreei demorado. Este é um voo de palavras e houve momentos em que as senti se aproximar e ensaiei escrever. Mas as palavras arremeteram a aterrissagem e arredias voaram novamente. É, estou sem palavras e não sei por quanto tempo elas ainda se aterão a esse capricho de, por pirraça, me fazer esperar. Talvez elas saibam que só em silêncio se consegue sentir e consolar tristezas. Enquanto elas voam eu deixo aqui o frescor de palavras meninas a soprar uma brisa de beira de rio, plantando desejos.

Música: Jacques Morelembaum
 

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