Inspirar-Poesia, um segundo sopro

medidas, figuras e órbitas

Por Sueli Maia (Mai) em 9/28/2010
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O corredor era um gargalo que após sete metros se abria em curvas e à direita ou esquerda, havia salas contíguas com bancos à porta. São 11:30 no relógio do 25º DP, me restava esperar e registrar a ocorrência. As cenas vinham e se desfaziam enquanto eu me acalmava. No pátio, oito ou nove metros era a altura do muro. Numa das laterais da carceragem, um pastor alemão no canil. Do outro lado, mãos fora das grades. Durante algum tempo o dia 7 de fevereiro foi uma cicatriz em meu pulso direito. Nos engarrafamentos e pelo repouso das mãos no volante, eu a toco. Aquela era a segunda vez que eu e o Lúcio nos víamos em uma delegacia. Quando menino ele era ágil e hábil com as mãos. - Este aqui não é órfão. - Me disseram. - Quase não fala. É comum ficar pálido e desmaiar. - Viera da fazenda dos Mattos. Há seis anos e já formado, me disse que finalmente chamava-se Lúcio de Mattos. O nome do pai - após o processo - constava agora em sua certidão. Visitas começaram a chegar e outros braços se juntaram em acenos nas grades. Percebo um inseto, o bote de uma lagartixa e uma fila de formigas no muro. No jornal - manchetes de mais um crime, estragos das chuvas, campeonatos, fraudes e a economia. Olho meu braço. Eu já havia me cortado em um gargalo. São 13 h e chega a minha vez. Lúcio é o escrivão e digo a ele: naquelas órbitas eu pressentí mais que uma mera cicatriz. Entreguei minha bolsa e ele correu.
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horizontais - diário das ruas

Por Sueli Maia (Mai) em 9/22/2010
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Roncou a motocicleta - são 5:30 - com a entrega dos jornais. E não pelo tráfego, mas pela intensidade, há ruidos peculiares à rua Dr. Joaquim Benevides. Por detrás das persianas e cortinas, mãos, olhos e pontas de cabelos denunciam a astúcia costumeira. - Caiu! - Gritou um. E de seguida, aplausos e assobios foram replicados com uma risada. E noutro grito: - Deitou! -Josete é conhecida por sua fartura. Capa de revista nos anos 90 transita às claras com seus namorados. Um tipo inevitável de mulher, não se importa com o noticiário. No correio da vizinhança, ela e seu Jamil figuram em primeira página. Viúvo há quase dois anos, o vermelhão dono da padaria é farto nas formas e na risada. Do terreno baldio à frente, mais dois arranha céus surgirão. No verão, as folhas da paineira atapetam as varandas, redobra o trabalho e aumenta a campanha do contra. Sobre o seco das folhas, a simples queda de um objeto desperta os plantonistas da Joaquim Benevides. Como o estouro de um transformador após um trovão, o tombo pareceu-me pesado. A risada era conhecida. Horizontais, pensei. Algo caiu e não sei bem por que, mas pensei na Josete, no Jamil e na velha paineira.


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Música - Gustavo Dudamel e Orquestra Simon Bolívar - (Mambo) - Bernstein

oásis...

Por Sueli Maia (Mai) em 9/21/2010
Areal de beduínos, lençóis, e a lenta miragem ondulando em sol posto, era um oásis e tudo aquilo era ele, era eu e era nada que ao mirar, a minha boca umedecia e dos meus olhos choviam brilhantes. Olhos d'água e eu bebia com o olhar as tuas águas e pedia sem falar, vem, mas vem de mansinho, tenho sede. Eu também sou água e sei, matarei tua sede na minha sede até que os corpos cansados tenham força prá seguir. Vês? É um oásis e a certeza de encontrar, beber, fartar e por fim, umedecer uma boca noutra boca ressequida nesse inóspido deserto que por certo, será fértil por nós dois. Marcas, passadas e as pistas deixadas nas dunas eram corpos ondulando um no outro sob o céu que espargia seu lume. Sonho, oásis, miragem e tudo era pouco e bastante prá nós dois. Céu protegendo, és fonte e eu sou água sob o céu de um sol posto. Bebe-me inteira, bebamo-nus e dá-me o remanso, aos goles. E quando as primeiras estrelas cairem no céu dos meus olhos, eu quero teu riso no meu. Vem! Dar-te-ei minhas águas. Então rega essa minha estiagem que é noite. E essa noite é tarde e estou rouca de gritar prá dentro, estou louca por dentro, ardendo também e quero cair em teus braços. Deixa-me morrer, só esta noite, tu és meu oásis e os teus braços me abraçam e me deito nesta cama que é , um areal de beduínos.
Imagem: Google
Música: Ryuichi Sakamoto e Richard Horowitz
Trilha de "O céu que nos protege"

lugar comum

Por Sueli Maia (Mai) em 9/18/2010



A costura sempre fica entre o alinhavo e o arremate,
mas para escolher melhor é preciso estar atenta aos detalhes no avesso do tecido.




Meu voto sou eu que escolho, por isto voto em MARINA SILVA
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"Nada mudará na sociedade se os mecanismos de Poder
que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado
a um nível muito mais elementar quotidiano, não forem modificados"
(Michel Foucault)
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sempre mar

Por Sueli Maia (Mai) em 8/20/2010
Premências de amar em mar, um amor. Do que me falta, pondero a falta. E se me basto por me amar, eu faço o pacto de te amar em tua falta. Perenidades de um vazio em nossas fomes, nossos quereres, esses são tudo, esses transbordam. Assim, amar-te em mar de amor é tudo e nada. Minha desordem é que te amar, prá mim é sempre, sempre te amar. E o sempre é tudo e sempre, é nada!
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Fotografia: SMaia

biografia de tantos nadas

Por Sueli Maia (Mai) em 8/19/2010
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Nem sempre nos damos conta, mas nem tudo nesse mundo é o que aparenta ser, nem tudo é o que se quer. Assim é que o rochedo maciço lá do alto, se transforma simplesmente em uma imagem, e na água escura do lago, ele pode ser tocado, sentido e no toque das mãos recolhido, para depois escorrer pelos dedos, gotejar no chão e sumir na terra. A gente perde muitas coisas vida afora, é fato, mas ganhamos outras tantas ao longo do viver. Pequenas coisas, assim como gestos singulares, podem colorir a mesmice cotidiana. Na solidão plural, os dias se fazem diferentes com um simples bom dia, um abraço, um sorriso ou um e-mail singelo. Pequenos nadas que podem ser o bastante para fazer um dia ser diferente. Ontem foi uma noite muito fria, a noite mais fria de toda a minha vida e eu tenho 52 anos. Por instantes eu pensei que não conseguiria me controlar, me aquecer... E lembrei dos tantos que estão sem abrigo e por fim, me encolhi, tremi calada até dormir. Hoje o meu coração se aqueceu com um desses gestos. O poema "Balada de tantos nadas incontidos", escrito pelo poeta José de Assis Freitas, um tudo que pode ser lido em:ww.mileumpoemas.blogspot.com/2010/08/311-balada-de-tantos-nadas-incontidos.html.

Obrigada, Assis, guardarei para sempre


Fotografia: SMaia
1 Lago Nova Friburgo Country Clube
2 Leito do rio Lumiar
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incontido

Por Sueli Maia (Mai) em 8/17/2010
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O mar da minha terra é como eu. Primeiro se arrebenta nos corais e arrecifes, e espraiando no alto se espalha e expande, marcando lugar. E domado ele rola miúdo e mansinho, na beira, na areia, olhando pro sol. O ar da minha terra está em mim. Porque ele inspira, insípido, invisível, as mais fortes paixões. Depois ele exala o tempero e cheiro das índias e suas especiarias. Os rios da minha terra correm em minhas veias, e lembram Veneza que deita seus veios, sem rumo e sem foz. O chão da minha terra é meu plexo, meu nexo, oriente e nordeste, porque é nele que nascem mangabas, goiabas, sapotis e cajás, que no pé, eu trepo faminta e no alto eu pego, o fruto maduro que eu quiser chupar. O mar da minha terra é como eu, nada contém.
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Escrita em 16/12/2008

o ponto e a linha circular

Por Sueli Maia (Mai) em 6/24/2010

A linha, o ponto e o lugar do encontro. Amigos no ponto de encontro e sem espera a condução das 6:15 logo sai. Mas tudo ao redor cheira a restos: - amônia com bebida entre as pernas e o cigarro que exala dos poros é náusea. Mas é um corpo que transborda do trago e tombado se enrosca nos trapos e tenta viver, se aquecer. Aos tombos chacoalham os corpos de pé nesse ônibus. 6:20 - trânsito, e tudo hiberna na preguiça das manhãs. Droga fumaçando nas cabeças. Paciência! É mais um sopapo e espio lá fora o que sobra do calor das fogueiras quase mortas, e há tantos quase mortos lá fora e aqui dentro à margem de tudo. Quase morte é a mistura dos odores dos corpos acebolados que roçam em quase silêncio de um sono a teimar. Paciência com os buracos das ruas e os zumbis transitando, roçando, pulando, acordando, se olhando e voltando a dormir, a roncar, a babar. Paciência! Há corpos chacoalhando aos solavancos dos buracos que são tantos e tantos também são os solavancos dessa vida, que as mãos quase não dão conta de segurar com paciência. Na volta há diálogos inaudíveis e dá vontade de cantar e espantar antes que em outro solavanco eu morda outra vez minha língua e outra vez, eu suspiro! Cruzo pernas com olhares e olhares com sorrisos. Frente à casas fechadas vassouras a varrer calçadas e as fachadas dos empórios vazios são bares com copos vazios caídos sobre as mesas. De pé equilibrio de cansaço com a ressaca das garrafas alegres que ontem dançavam. Final de um dia e um sol deixa em cores um laranja e o amargo das laranjas nas línguas e no céu dessas bocas há olhos de outra noite em que escrevo sem pressa, o impaciente tempo dos homens. 6:15 é a chegada dessa linha circular.
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Texto reeditado
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